Thorazine

11/03/2004 17:59

PoEsIa


Raul Seixas


Já não importa
a falta
já não importa
a porta
já não importa
a comporta
que segura sua ira
o comportamento lamento lento
do apartamento morto
sem janelas
já não importa
a horta de hortelã
a escada de incêndio
do meu peito em chamas
já não importa
a infância fechada
a ferida aberta
que nunca cicatriza
a brasa acesa do cigarro aceso
queimando eternamente
a minha carne
mas ainda assim...
já não importa
já não importa
a presença
a sentença
o que me importa
é esse não me importar constante
a estante
o instante
o segundo / o primeiro
quero ser o último da sala
de jantar
o último da fila de repartição
o último a morder o pão
nosso de cada dia
e o primeiro a morder sua bochecha
chocha cheia de fumaça
verde pálido
mas mesmo assim
já não interessa
a pressa
não importa
o salário
o mendigo morto
a baba, afogado no mar de merda
já não importa a falta que o travesseiro me faz
já não importa sua cara de bronze
seu cu fedorento
que peida escondido
a careta que eu faço no espelho
já não tem graça nenhuma
não importa o que eu quero
é estar presente
no dia e na hora
no minuto e no segundo
e no lugar em que eu peidar em sua presença.


Poema inédito (sem título) publicado na revista Caros Amigos #4 de agosto de 1999.

enviada por Romulo Narducci






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